O vendedor de ilusões
A coleção de violinos austríacos repousa no canto esquerdo da ampla sala. Ao lado descansam telas inacabadas, interrompidas não sei por que motivo. O homem de ar aristocrático canfere as bebidas que deixei sobre a mesa de mármore rodeada por cadeiras brancas. Além da enorme janela esta o mar e seu infinito decorado por veleiros nevegantes na brisa do meio dia. Da porta lateral surge uma cadeira de rodas. Nela uma mulher de meia idade está inerte com o queixo encostado ao peito. Outras quatro mulheres vestidas de branco a rodeiam. Então o homem a olha e me diz. _ Esta é Eulália, minha esposa. Vive assim a três anos, teve um problema de saúde e não mais se recuperou. Tinha uma vida agitada, muito querida por todos, boa mãe, boa esposa, sempre sorridente. Agora vive assim. Estes são seus quadros inacabados, não conseguiu terminá-los, então resolvi colocá-los na sala assim mesmo. O homem olhou-me nos olhos e comentou. - O que posso fazer, a não ser esperar e tentar entender tudo isso? Fiquei calado. Desejei-lhe feliz natal e um bom ano novo, peguei o elevador e saí. Não consegui nessa manhã de sábado que antecede ao Natal ficar sem rabiscar alguma coisa no teclado. Que explicação teria eu para esse aperto que estou sentindo agora no peito? A única coisa que me caberia dizer seria repetir as palavras da minha velha e inesquessível amiga Salma Duarte. A velha Salma sempre antes do Natal dizia o seguinte. - "Antes de julgar o peso da tua cruz, tente entender o peso da cruz dos que estão ao teu redor".
Então penso no peso da cruz daquele homem que tem todos os bens materiais, todos as posições sociais desejaveis. Mora no lugar mais cobiçado da cidade, come as melhores comidas e bebe as melhores bebidas. Mas talvez seja também o mais infeliz dos homens. Aquele pobre rico homem não vai brindar pela felicidade que tem tido. O perlage da Pipper não vai descer em sua garganta como um nectar, mas sim como um liquido raro que seu dinheiro pode comprar. Certamente também não olhará para o céu na noite de Natal. Blim, Blom...
Um brinde a ilusão..
Escrito por juliogarcia às 13h07
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Á Carla
Perdi meu norte..
Ao ver tua roupa no chão..
A vastidão do meu oeste..
Se resumiu num lençol..
Enrolado sobre a cama.
Meu leste..
Era o verde azul dos teus olhos..
E nas ondas do teu mar, me perdi.
Me perdi, nas curvas do teu corpo..
No calor de tua boca.
Quando voltei ao mundo..
O sol brilhava..
Além da janela.
Escrito por juliogarcia às 02h20
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Papai Noel
Blim, blon. Acho que era assim o som do sino de minha imaginação. Tum, tum. Também creio que fosse assim o som do piano dos meus devaneios. A lua nascia ao longe, diziam que saia da aguá do além, mar. Minha mãe esperava na sala o início da Missa do Galo direto de Roma, pelo rádio. Além de mim o mundo girava, enquanto olhava o céu esperando, Papai Noel. Ele nunca vinha enquanto estava acordado, vinha sempre após adormecer na minha cama de colchão de palha de milho. A bola de futebol era o maior desejo. Pela manhã vestia minha calça curta, meu conga novo e a camisa branca. Saia pela visinhança a mostrar minha bola de futebol numero 3, pois Papai Noel nunca pode me trazer uma oficial, numero 5. Eu entendia, pois haveriam outras crianças no mundo e o dinheiro do bom velhindo era curto. Sonhava um dia andar de carro. Sonhava um dia, dirigir um caminhão. Sonhava um dia, ter uma televisão. O tempo então se encarregou de mostrar-me que tudo seria possível se eu nunca parasse de sonhar. E quantos sonhos tive eu dai por diante. Fiquei grande, e sempre na noite de natal eu olho para o céu. O mundo se transformou, as coisas se modificaram. Meu sertão banhado pelo rio foi invadido pelo progresso e resolvi deixá-lo para tráz. Hoje sou um homem feliz, vivo em contato com o mundo das coisas boas. A tarde, deixei minha loja por uns minutos e fui até um bairro duramente atingido pelas últimas chuvas. Lá pude ver com meus olhos, como será o Natal dos outros, dos que vivem lá. Não gosto da sensação de estar sendo visto por outras pessoas que acham estar na frente de alguém muito além do seu mundo. Não gosto da sensação de saber que pessoas te acham o melhor dos homens, o mais rico e mais poderoso. Era assim que me olhavam. E nada disso sou. Então entro no carro e saio em direção ao meu trabalho. Então choro. E choro pelo simples fato de aquelas pessoas não acreditarem em Papai Noel. Pois eu ainda acredito.
Escrito por juliogarcia às 01h46
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